'Doença da urina preta' afeta os rins e atinge os olhos?

Mensagem em redes sociais trata de surto da doença no Norte do país e traz imagem de olho humano contaminado


Circula em grupos de WhatsApp uma mensagem sobre a situação da “doença da urina preta” nos estados do Amazonas e do Pará. A mensagem traz algumas imagens e um texto sobre a doença, cujo nome correto é Síndrome de Raff. Uma leitora do MonitoR7 pediu que as informações fossem verificadas.

Na mensagem é apresentada a foto de uma pessoa, identificada apenas pela ocupação(mototaxista), que teria morrido, vítima da doença, na cidade de Santarém, no Pará. Se trata de Genivaldo Cardoso de Azevedo, de 55 anos, que morreu na última terça-feira(07), com suspeita de rabdomiólise, um dos sintomas mais comuns da Síndrome de Raff.

 
A mensagem ainda lista três espécies de peixes cujo consumo seria responsável pela contaminação com a doença e que, por isso, deveriam ser evitadas: tucunaré, traíra e tambaqui. Nos estados afetados pelo surto da doença, houve queda no consumo de peixe. No Pará, essa queda chegou a 70%, segundo o sindicato loal que representa vendedores de peixes.

A doença

A Síndrome de Haff é chamada de “doença da urina preta”, porque este é um sintoma muito comum entre as pessoas contaminadas. A principal suspeita é que a doença seja causada por uma toxina biológica, que pode ser encontrada em algumas espécies de peixes, se mantidas em condições inadequadas de armazenamento. Ou até mesmo em algas que servem de alimento para estes peixes.

 
Quando, por algum motivo, a toxina atinge o nosso organismo, ela causa a rabdomiólise, que é a lesão na musculatura do corpo. Os músculos lesionados liberam no sangue um pigmento chamado mioglobina. É esse pigmento que provoca a famosa "urina preta".

Em grande quantidade, a mioglobina sobrecarrega os rins, responsáveis pela filtragem do sangue humano. Isso pode levar a lesões renais e até à necessidade de hemodiálise. Ou mesmo à morte, segundo Osvaldo Merege Vieira Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia(SBN). Para evitar isso, é essencial manter o paciente bem hidratado.

O consumo de peixe

 
O infectologista Antonio Magela, Diretor de Assistência Médica da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), em Manaus, explica que apesar dos surtos serem relacionados a pacientes com “histórico de ingestão prévia de peixe”, essa correlação não é comprovada pela ciência. “Queremos definir uma causa real para isso. Nem o Brasil, nem outro país no mundo tem a causa real(para surtos de rabdomiólise)”, segundo o médico.

Desta forma, é enganoso afirmar que as três espécies de peixes estão diretamente ligadas a essa Síndrome. Apesar das fortes evidências, ainda não há uma comprovação cientifica. E mesmo se for comprovada essa ligação da doença com o consumo de pescado, a toxina não é criada de acordo com a espécie do animal e sim pelas más condições de armazenamento do alimento.

Em relação ao alerta sobre consumo de peixes, Osvaldo Merege Vieira Neto afirma que se deve  ter o cuidado de comprar peixes em um lugar que você tenha certeza que está bem cuidado e conservado.

O surto no Norte

No Pará, segundo a Secretaria Estadual de Saúde, até esta segunda-feira(13), foram registrados seis casos suspeitos de Haff. Já no Amazonas, segundo a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-RCP), até a última quinta-feira(09), foram 61 casos suspeitos. Apesar disso, o  infectologista Antonio Magela, da FVS-RCP, acredita que a situação está sob controle: "estão acontecendo notificações de casos muito pontuais, mas que caminha para a normalidade”.

Informações falsas

Apesar do alerta em relação ao surto da doença ser verdadeiro, a mensagem traz informações falsas nas imagens anexadas.

A foto que mostra um verme dentro do olho de uma pessoa, indicando que ela chegou a esse quadro após comer um peixe com a toxina, é falso. A imagem é de um homem de 60 anos, que teve de ir até um hospital em Indiana, nos Estados Unidos, em 2018, para retirar um verme de 15 centímetros que estava em seu globo ocular. Esse verme é transmitido pela picada de um mosquito e não pela ingestão de peixes contaminados.

Os vídeos compartilhados também não se referem à toxina que causa a rabdomiólise, pois segundo o presidente da SBN, ela não pode ser vista a olho-nu.

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