Maria Ivoneide e o desafio de ser a única Oficial de Justiça da comarca em Glória de Dourados


Paranaense da cidade de São João do Caiuá, Maria Ivoneide de Alencar Azevedo Santos veio adolescente com a família para Glória de Dourados e, apesar de cursar faculdade de Pedagogia, seus interesses mesmo eram pela área de Direito e por trabalhar no Fórum. Aos 21 anos, surgiu o concurso com duas vagas para a comarca da cidade: uma para escrevente e outra para oficial de Justiça. Ela se inscreveu para oficial, sem saber ao certo qual a incumbência do cargo, mas tinha a impressão de que era algo muito importante.


Vinda de uma família humilde, quando sua convocação foi publicada seu pai a procurou para dar a notícia. “Eu fazia bicos para ganhar algum dinheiro para ajudar em casa e no dia eu estava numa fábrica de produtos de limpeza. Saí de lá e fui a um local onde eu sabia que tinha uma cópia do Diário Oficial para ver se era verdade mesmo. De tão emocionada, tive que pedir ajuda para o pessoal para conseguir localizar meu nome. Lá estava, e aquilo mudou minha vida completamente!”.

Ela foi nomeada em 15 de março de 1985, mas cerca de um mês antes, como estava em 1º lugar e sabia que seria chamada mais cedo ou mais tarde, ela se apresentou no Fórum e pediu autorização do Juiz para acompanhar as rotinas dos oficiais de justiça e ir se inteirando do serviço. Como sempre gostou de estudar, aproveitou ainda para ler muito sobre seu futuro ofício.

Já no primeiro mandado a cumprir enfrentou um grande desafio que ficou marcado na sua memória: “recebi a ordem para penhorar uma lavoura de soja. Era um caso onde o dono da safra tinha arrendado a terra e estava devendo ao proprietário. A liminar determinava o sequestro de uma quantidade de soja que ainda não havia sequer sido colhida. Como eu tinha lido o código de normas de cabo a rabo, sabia que em situações como aquela eu poderia solicitar apoio de um colega oficial e lá fomos nós, junto com o proprietário e seu advogado”.

Naquela época, explica Maria, a região de Deodápolis fazia parte de seu território de atuação e a fazenda ficava na zona rural de lá. “Foi longe o trajeto até que chegamos em plena colheita. Não tinha tanto apoio de maquinário, então havia uns 50 peões na lavoura e foi aquele alvoroço. Mas a indignação maior do pessoal não era sobre o caso em si e sim sobre o fato de uma mulher ser quem estava dando as ordens. O devedor não se conformava e eu tive que me impor. Ou ele cumpria a determinação e deixava eu fazer o meu serviço ou ele teria que obedecer do mesmo jeito, só que com a força policial”.

“Ele acabou cedendo e comecei o meu trabalho. Fui andar um pedaço da lavoura, verificar em que pé estava a colheita, e atrás de mim vinha o grupo de homens. Eu podia ouvir os cochichos deles, ainda incrédulos de que toda aquela situação estava sob o comando feminino. Muitos diziam que não era para eu estar ali, que lugar de mulher era em casa”. E ela precisou aprender a lidar com o preconceito até porque, depois de 36 anos de atuação, Maria continua a ser a única mulher a ocupar essa função em Glória de Dourados.

“Teve um dia que bati na porta e o homem que atendeu levou um susto. Disse que eu era a única mulher que lhe gelava. Depois isso virou até motivo de brincadeira. Quando eu cruzava por ele, eu perguntava se ele estava sentindo um friozinho com a minha presença”. E assim, com sua postura profissional e inteligência emocional, a população foi se acostumando com ela.

Outra situação que marcou a trajetória de Ivoneide foi a de três crianças que eram criadas pelo pai e pelos avós numa fazenda após a mãe ir embora com um amante. “Cinco anos se passaram e a mãe entrou com uma ação que lhe concedeu a guarda dos filhos. Ela ficou aguardando no Fórum e eu fui cumprir a diligência. Chegando lá, os avós ficaram muito emocionados e foram chamar o pai que estava trabalhando, que também ficou inconformado. Enquanto eu tentava acalmá-los e explicar que poderiam recorrer da decisão, as crianças perceberam que seriam levadas e se esconderam. Procuramos por todo o sítio, foi escurecendo e começou a chover”.

E continua assim: “só quando eu retornei à casa que escutei vozes de crianças ao fundo e fui andando em direção ao som por uns 400 metros até encontrá-las abraçadas embaixo de um pé de café. Tentei convencê-las a ir, sem sucesso, até que depois de uma longa conversa com o pai, elas entraram no meu carro. Antes o pai ainda correu e colocou uns doces na bagagem deles. Fiquei com o coração partido. Pelo retrovisor eu via aqueles três pequenos com os olhinhos inchados de tanto chorar. Quando chegamos no Fórum, a mãe foi ao encontro deles, que tentaram fugir mais uma vez”.


A história foi muito marcante para Maria Ivoneide porque ela percebeu o quanto as crianças estavam bem cuidadas e não queriam ir morar com a mãe. Tempos depois, ela foi testemunha do caso, a pedido do pai, que recorreu da decisão. O processo teve recurso até em Brasília, mas ele conseguiu reverter a situação e os filhos voltaram para a guarda paterna.

Em meio a tantas situações e anos de profissão, ela conta que até hoje é surpreendida. Ela explica que os seus mandados, em sua maioria, tratam de pessoas atendidas pela Defensoria Pública, com pouca instrução e informação, as quais ela sempre busca orientar sobre como se defender. “O processo tem dois lados e grande parte do público ainda não conhece o Direito até o momento que precisa dele”, lamenta.

Por fim, apesar de todas as mudanças ao longo dos anos e superando todas as dificuldades, ela diz que assim encerrará sua carreira de oficiala de justiça no Poder Judiciário sul-mato-grossense: “com muito orgulho e feliz de ter cumprido a missão, somando ainda cinco estrelas na ficha funcional. Se mil vidas eu tivesse, as mil vidas seriam dedicadas a essa função”.

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