Saiba se é hora de vender ou comprar ações da Petrobras após troca na presidência

Especialistas apontam que cenário ainda é de incerteza, mas que ativos da estatal têm espaço para crescer

| CNN BRASIL / JOãO PEDRO MALAR DO CNN BRASIL BUSINESS


- Caio Mário Paes de Andrade foi indicado para a presidência da Petrobras Ueslei Marcelino/Reuters

Após o anúncio do governo federal de mais uma troca na presidência da Petrobras, as ações da estatal operaram em queda nesta terça-feira (24) na bolsa de valores brasileira, refletindo uma cautela entre investidores devido às incertezas em torno do que poderia mudar com o quarto presidente da companhia em um ano.

A ação preferencial da companhia (PETR4) encerrou com baixa de 2,92%, cotada a R$ 31,60, após tombar mais de 4,5% ao longo do dia. Já o papel ordinário (PETR3) desvalorizou 2,85%, encerrando a R$ 34,40. Pela manhã, recuou cerca de 4%.

Não é a primeira vez que esse movimento acontece. Quando o governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) realizou a primeira mudança na presidência em abril de 2021 demitindo Roberto Castello Branco, as ações também recuaram, mas depois apresentaram recuperação.

Para especialistas consultados pelo CNN Brasil Business, ainda é cedo para dizer se o mesmo acontecerá agora. A troca ocorre em um contexto complexo, e qualquer mudança na política de preços da empresa seria muito mal recebida pelo mercado, avaliam.

Ao mesmo tempo, apontam o fato de as ações estarem descontadas, termo usado para se referir a papéis cuja cotação na bolsa é menor do que deveria ser considerando suas características financeiras e contexto. Por isso, a estatal ainda segue atraente.

O que fazer com as ações da Petrobras?

As recomendações dos especialistas para as ações da Petrobras são diferentes dependendo do perfil de investidor.

Caso a pessoa já tenha ações da empresa, a recomendação de Flávio Conde, head de renda variável da Levante, e de Alan Gandelman, CEO da Planner Corretora, é mantê-las. “A grande maioria das corretoras coloca a Petrobras com possibilidade de ganho e altas superiores aos preços praticados, mesmo com essas questões das trocas”, destaca o CEO da Planner.

A queda na terça-feira, segundo Conde, é normal já que o mercado não gosta desse tipo de intervenção, mas é comum que elas se recuperem depois, conforme os investidores entendem o que mudará ou não na empresa, como nas trocas anteriores.

O economista avalia que os investidores darão o “benefício da dúvida” para o governo exatamente pelos casos anteriores. Mesmo com a queda, “o que conta mesmo é a cotação de quinta-feira, no primeiro dia cai, segundo sobe, a partir daí equilibra”.

“Quem tem ação e é investidor não deve vender, e as ações não estão caras, ainda é uma empresa barata, e já está incorporando o risco dos reajustes demorarem devido ao alto lucro”, avalia.

Gandelman afirma que ainda vê potencial de alta nas ações da Petrobras, e que o recuo de terça-feira foi mais um recuo pontual em um momento de susto e incerteza, com a bolsa de valores em um ambiente volátil.

“Se a queda permanecer por mais dias, a ação fica ainda mais atrativa do que está, pode ser bom momento para comprar, mas o cenário como um todo na bolsa é de volatilidade, indo de um lado e para o outro”, afirma.

Já para os que ainda não têm as ações, Conde afirma que, em geral, a Levante não recomenda comprar nenhuma ação de estatal devido à possibilidade de intervenções.

Ele diz que existem oportunidades menos arriscadas no mercado para quem tem interesse em determinados setores ou tipos de empresa.

No caso do petróleo, a 3R Petroleum e a PetroRio seriam boas opções, por serem empresas privadas e sem risco de interferência governamental.

Gandelman pondera que a PetroRio e a 3R são empresas diferentes da Petrobras, e que vale entender como elas funcionam. Em geral, são exportadoras de petróleo, e seguem os preços internacionais, o que as faz ter uma lógica diferente da Petrobras.

Se a busca por ações de estatais descontadas, Conde opina que os papéis do Banco do Brasil, com menos risco de intervenção, e da Eletrobras, prestes a ser capitalizada, são opções melhores. E se o interesse for em commodities no geral, existe a opção das metalúrgicas, caso da Vale e da Gerdau, todas privadas.

Saiba mais sobre o petróleo e como funciona a sua cotação

O petróleo é considerado uma commodity. O termo se refere a recursos finitos que têm origem na natureza e são comercializados. No caso, o petróleo é usado principalmente como combustível, mas também dá origem a materiais como o plástico

O petróleo pode ser de vários tipos, dependendo principalmente do seu grau de impureza. Os dois principais, Brent e WTI, são leves (pouco impuros), e a diferença se dá pelo local de negociação: bolsa de Nova York no caso do Brent e bolsa de Londres no caso do WTI

Os preços do petróleo seguem uma cotação internacional, e flutuam pela oferta e demanda. No Brasil, o preço de referência adotado pela Petrobras - maior produtora no país - é do Brent, seguindo a cotação internacional, em dólar

Quando se fala da comercialização de petróleo, um fator importante é a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). Com 13 membros, ela é responsável por quase 50% da produção mundial de petróleo, e portanto consegue regular a oferta - e preços - pelos fluxos de produção

A partir de 2020, os preços do petróleo foram afetados pela pandemia. A Opep+ (que inclui países aliados do grupo, como Rússia) decidiu cortar a produção temporariamente devido à baixa demanda com lockdowns, e os preços caíram. A média em 2020 foi US$ 40, distante da média de anos anteriores, entre US$ 60 e US$ 70

Em 2021, porém, o cenário mudou, com o avanço da vacinação, os países reabriram rapidamente, e a demanda por commodities decolou, incluindo pelo petróleo. A Opep+, porém, decidiu manter os níveis de produção de 2020, e a oferta baixa fez os preços saltaram, ultrapassando US$ 80

A alta dos preços do petróleo, porém, trouxe consequências negativas para o Brasil. Como a Petrobras segue a cotação internacional e o dólar está valorizado ante o real, ela subiu o preço nas refinarias, o que levou a uma elevação da gasolina e outros combustíveis. Até o momento (dezembro de 2021), o preço da gasolina já subiu 70% ante 2020

A alta do petróleo não afetou só o Brasil. Países dependentes da commodity, como EUA, Índia e Reino Unido, também viram os preços dos combustíveis subirem, e têm tentado pressionar a Opep+ a retomar os níveis de produção pré-pandemia

Ao que tudo indica, porém, a mudança na política de preços da Opep+ deve ocorrer apenas em 2022, com os países membros aproveitando para se recuperar das perdas em 2020

Política de preços

Para o mercado, o grande temor é a troca na presidência representar também um esforço do governo federal para mudar a política de preços da Petrobras. Entretanto, Gandelman avalia que a hipótese é pouco provável atualmente.

“A leitura é que o novo presidente é muito alinhado ao [ministro da Economia] Guedes, e não se espera que haja alguma expressiva na política de preços da Petrobras”, afirma, se referindo a Caio Mário Paes de Andrade, indicado pelo governo.

Ele ressalta porém que, se ocorrer uma mudança na política de preços, haveria uma forte influência negativa nas ações, já que estatal estaria “represando preços com custos subindo, reduzindo o lucro”.

Flávio Conde lembra que as trocas anteriores na presidência não resultaram em mudanças na política, o que é positivo, apesar de ameaças nesse sentido. “Quem aguentou o tranco durante as trocas se saiu bem, porque as ações se recuperaram”, pondera.

Entretanto, ele diz que o cenário é de incerteza, e que o governo pode acabar pressionando o novo presidente a aumentar o espaço temporal entre reajustes nos combustíveis, de 70 para 180 dias, o que não seria exatamente uma violação da política, que não define prazos de reajuste, mas ainda seguraria altas dos combustíveis e afetaria o lucro da Petrobras.

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“A defasagem entre a gasolina brasileira na refinaria e a de parâmetro de mercado estava em 30% na semana passada, e quando chega em um número alto como esse, surge uma pressão para algum tipo de reajuste. O normal é uma defasagem de 10%, 15%. Isso sugeriria um aumento em torno de 10% a 15% nos próximos dias, isso que deve estar na mesa”, afirma.

Se o reajuste não ocorrer, o mercado pode ficar mais receoso com a empresa, prejudicando as ações. Ao mesmo tempo, Conde avalia que o lucro da Petrobras graças à alta dos combustíveis está tão alta que espaçar mais os reajustes não levaria a um prejuízo, só redução de lucro.

“Além disso, estamos cada vez mais na cara das eleições, e para o governo seria muito bom se de junho em diante a Petrobras não aumentasse o preço”, ressalva.

Para Gandelman, já é possível notar um espaçamento alto entre os reajustes da gasolina, já que o último ocorreu há cerca de 7 semanas e o petróleo continua alto, gerando defasagem.

Por isso, o movimento do governo “pode sim estar de fato acontecendo, mas de forma velada, ninguém vai dizer a público que mudou a política”. Ele avalia que, se o mercado notar esse movimento, que seria facilmente percebido, as ações também cairiam por representar uma interferência.

Mesmo assim, para ele o mais provável é que o governo busque outras alternativas para reduzir os preços da gasolina e do diesel ou ao menos evitar novas altas, como o projeto de lei que reduz o ICMS cobrado sobre os combustíveis.

“O acionista majoritário é o governo, e se mexe na política e prejudica a Petrobras, os dividendos ficam menores e também prejudicam o governo. A própria política de preços beneficia o caixa federal, é uma equação que obviamente é sabida pelo ministério da Economia”, diz.

Os dois riscos para as ações, de acordo com Conde, seriam o governo não permitir nenhum reajuste nos combustíveis ou a política de preços da empresa mudar após as eleições, como sugerido pelo ex-presidente Lula (PT), candidato no pleito. O segundo risco, porém, está mais distante, e ainda não deve influenciar nas ações.

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