Lideranças dos Guarani-Kaiowá estão preocupadas com o futuro dos povos indígenas brasileiros a partir de 1º de janeiro de 2019, quando começa o governo do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). Temem uma escalada na violência contra grupos que lutam pelas demarcações de terras, como acontece em várias regiões de Mato Grosso do Sul.

O temor foi relatado na tarde desta quarta-feira (7) à comissária Antonia Urrejola Noguera, integrante da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos).

Após visitar a aldeia Tey Kuê e o acampamento Guyraroka em Caarapó, Antonia se reuniu com lideranças indígenas na Escola Agostinho, na aldeia Bororó, em Dourados, a 233 km de Campo Grande.

Durante uma hora, a chilena ouviu depoimentos de várias lideranças sobre conflitos com produtores rurais na briga pela terra, inclusive em sítios a poucos quilômetros dali. “Aconteceu hoje bem ali, os seguranças estão lá com tratores, atacando nosso povo”, afirmou o cacique Getúlio de Oliveira. Sitiantes afirmam que são os índios que espalham o terror, ameaçando invadir áreas de lavoura e de colocar fogo nas casas.

Ao lado de outros membros da comissão e de representantes do Cimi, da Funai e do MPF (Ministério Público Federal), Antonia ouviu atentamente os discursos em português. Alguns índios falaram em guarani e contaram com a ajuda de tradutores da própria comunidade.

Governo Bolsonaro – Partiu da líder indígena Guarani-Kaiowá Dirce Veron, filha do cacique Marcos Veron – assassinado a mando de fazendeiros em janeiro de 2003 – a manifestação de preocupação com o futuro governo.

“Nesses próximos quatro anos, eu não sei se nós vamos estar em pé. Sabemos que vão nos perseguir, principalmente nós da linha de frente. E nós não vamos correr, vamos continuar na luta, vamos continuar com as retomadas, não vamos recuar nem um passo”, afirmou ela.

Dirce declarou que os índios temem por investidas da própria polícia a partir de janeiro. “Sabemos que já estão preparando a tropa de choque da Polícia Militar, o Exército, todos preparados para perseguir o índio com o aval desse governante”, disse ela, sem citar o nome do presidente eleito.

Ela pediu que a OEA envie equipes de forma mais constante ao Brasil a partir de janeiro. “Não sabemos se os procuradores da República que nos apoiam vão continuar aqui, em Ponta Porã, em Naviraí. Em nome das crianças, das mulheres e dos idosos, queremos a presença de vocês aqui a cada três, quatro meses, nos próximos quatro anos”.

Em rápida entrevista coletiva após a reunião com os índios, Antonia respondeu a uma pergunta do Campo Grande News sobre o tema e não escondeu a preocupação.

“Estamos alertas e preocupados com os discursos de ódio, que muitas vezes são meras palavras, mas geram incentivo a violações aos direitos humanos. Agora, sobre o futuro governo, foi eleito democraticamente. Para nós não importa se o governo é de esquerda ou de direita, se é conservador ou liberal. Por enquanto não podemos falar nada porque o novo governo ainda não assumiu”, afirmou ela.

Ocupações – Getúlio de Oliveira, outra liderança com forte influência nas comunidades indígenas da região, repetiu por várias vezes que as retomadas (ocupações) de terras vão continuar e convidou a imprensa a acompanhar o dia que decidirem ocupar mais propriedades nos arredores da reserva local.

“Não adianta chorar. Os Guaranis e os Kaiowás ainda existem e nós vamos ocupar nossa terra. Não aguentamos mais tanto sofrimento. Hoje mesmo teve tiroteio. A polícia só vem para levar os corpos dos finados”, afirmou o cacique.

Atualmente, os índios ocupam cinco sítios ao lado da reserva de Dourados, onde moram 17 mil pessoas. Eles também ocupam parte da fazenda Curral de Arame e estão nos arredores de sítios próximos à Avenida Guaicurus, na região oeste do município.

Crianças tiradas das mães – Outro problema relatado à comissária da OEA foi sobre as crianças indígenas retiradas de suas famílias por ordem da Justiça e levadas para abrigos em Dourados pelo Conselho Tutelar.

Uma mãe indígena, que não fala português, relatou em guarani o drama que enfrenta há três anos após seu filho pequeno ser retirado dela e levado para o Lar Santa Rita. “Falaram que eu não podia mais ficar com ela porque eu moro num barraco”.

Ela relatou ter procurado a Funai, mas não conseguiu ajuda. Disse que na Promotoria da Infância e Adolescência ouviu que para ter o filho de volta precisava sair do acampamento onde mora.

Antonia Urrejola prometeu cobrar explicações das autoridades brasileiras sobre o caso específico citado pela mãe na reunião e sobre outras situações de crianças retiradas das famílias indígenas por medida de proteção.

Problema em várias aldeias – Em abril deste ano, o Campo Grande News mostrou que 65 crianças indígenas estavam em abrigos de Dourados, Caarapó, Ivinhema, Maracaju e Rio Brilhante. Vinte eram crianças de até cinco anos, oito retirados das mães com menos de 1 ano e três recém-nascidos.

Relatório da Funai relativo ao período até novembro de 2017 mostrava que só em Dourados eram 50 crianças e adolescentes em “acolhimento institucional”.

Na época, o juiz da Infância e Juventude Zaloar Murat Martins de Souza explicou que antes de a criança ser levada para o abrigo como medida de proteção é feita a tentativa de mantê-las na aldeia com parentes. Mas, muitos têm medo de ficar com o menor e sofrer ameaça dos pais da criança.

Veja abaixo o vídeo com depoimentos dos índios, de Antonia Urrejola e a entrevista com a comissária de direitos humanos da OEA:

 

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