Homem culpa cerveja por morte da esposa atropelada 2 vezes em frente aos filhos
Em júri, acusado afirmou que tragédia foi acidente e apresentou versão diferente da prova pericial
| GABI CENCIARELLI E BRUNA MARQUES / CAMPO GRANDE NEWS
'O único vício que eu tinha era cerveja e, por causa dela, estou aqui preso e perdi minha esposa.' Foi dessa forma que Willames Monteiro dos Santos, de 36 anos, resumiu a própria versão sobre a morte de Andressa Fernandes Teixeira, de 29 anos, durante interrogatório realizado na manhã desta quarta-feira (5), no Tribunal do Júri, em Campo Grande.
Acusado de feminicídio qualificado, Willames foi ouvido por cerca de 55 minutos. Ao responder às perguntas do juiz, da promotora de Justiça e da defesa, negou ter atropelado a esposa de forma intencional, afirmou que o casal não discutiu antes do crime e sustentou que a morte foi consequência de um acidente após os dois consumirem bebida alcoólica.
Segundo ele, no dia do crime os dois passaram a tarde em casa assando carne e bebendo cerveja. Contou que comprou inicialmente uma caixa com 15 latas e, depois, mais duas embalagens, mas afirmou não se lembrar da quantidade que ingeriu.
'Nós estávamos felizes, cantando, fazendo planos. Ligamos para minha irmã, em São Paulo (SP), dizendo que passaríamos o Natal lá. Não teve discussão', declarou.
Willames afirmou que a única divergência entre os dois ocorreu quando decidiu sair para comprar mais bebida. 'Ela falou para eu não ir porque tinha uma viatura da polícia perto e não queria que eu fosse preso. Eu falei que ia, mas em nenhum momento fui para cima dela ou agredi ela.'
O acusado contou que colocou o filho caçula na cadeirinha do carro, ligou o veículo, fechou os vidros, acionou o ar-condicionado e o som antes de sair da garagem. Disse que acreditava que Andressa permanecia próxima ao portão e que só percebeu o atropelamento quando ouviu a filha gritar.
'Dei ré e só escutei minha menina gritando que a mãe estava embaixo do carro. Desci, ela pegou na minha mão e eu falei: 'me perdoa, eu não vi'. Pedi ajuda para tirar o carro de cima dela.'
Ao longo do interrogatório, Willames insistiu que jamais teve intenção de matar a esposa.
'Se eu tivesse matado ela com intenção, teria atropelado ela de frente. Se eu quisesse matar, eu teria fugido. Tive oportunidade e fiquei lá tentando socorrer.'
Questionado pela promotora sobre o funcionamento do veículo, o réu apresentou uma versão diferente da prova pericial produzida durante a investigação. Ele afirmou que a câmera de ré estava quebrada e que havia desligado o sensor de estacionamento porque o equipamento emitia sons enquanto dirigia.
A declaração diverge do que foi apresentado pela perícia ainda durante a instrução do processo. Em audiência realizada em 2024, um perito criminal afirmou que o Volkswagen Polo possuía freios e câmera de ré em pleno funcionamento. Na ocasião, também explicou que o veículo reduz automaticamente o volume do som ao engatar a marcha à ré. O laudo ainda concluiu que o carro passou duas vezes sobre Andressa.
Ao responder às perguntas da defesa, Willames voltou a afirmar que nunca agrediu a esposa e que a filha pode ter interpretado como discussão o momento em que Andressa insistiu para que ele não saísse de casa.
'Para criança, basta você dar um grito que ela acha que é briga.'
Em outro momento, disse conviver diariamente com as consequências da morte da esposa. 'Meus filhos sentem saudade de mim. Minha mãe conta que eles perguntam por mim e pela mãe. Foi uma fatalidade. Nunca pensei em prejudicar ela.'
O caso - Willames responde por feminicídio qualificado por motivo torpe, emprego de meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima. Segundo a denúncia do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, na noite de 20 de abril de 2024, Andressa tentou impedir que o marido deixasse a residência dirigindo após consumir bebida alcoólica e permaneceu em frente ao portão da casa, no Bairro Nova Campo Grande. Em seguida, foi atropelada duas vezes pelo Volkswagen Polo conduzido por ele.
A acusação sustenta que o atropelamento foi intencional e se baseia, entre outros elementos, na perícia que apontou que o veículo tinha freios e câmera de ré em funcionamento, além da conclusão de que o carro passou mais de uma vez sobre a vítima. A defesa mantém a tese de que o atropelamento foi acidental e que o réu tentou prestar socorro logo após o ocorrido.
O Tribunal do Júri começou na manhã desta quarta-feira (5). Antes do interrogatório, familiares dos dois lados falaram com a reportagem. A mãe de Andressa, Rosângela Fernandes, afirmou esperar a condenação do acusado e disse que hoje é responsável pela criação dos dois netos do casal, que presenciaram o atropelamento. Já o irmão de Willames, Sandro Monteiro, declarou acreditar na inocência do réu e classificou a morte como uma fatalidade.
Durante a manhã, também foram ouvidas as testemunhas. A filha mais velha do casal, hoje com 14 anos, prestou depoimento em sessão reservada, por determinação do juiz Aluízio Pereira dos Santos, sem a presença do público, dos familiares e do próprio pai.
Na sequência, Willames prestou interrogatório por quase uma hora Encerrada essa etapa, acusação e defesa iniciam os debates perante o Conselho de Sentença. Depois das sustentações, as sete juradas responderão aos quesitos formulados pelo magistrado para decidir se o acusado será condenado ou absolvido. A expectativa é de que a sentença seja conhecida ainda nesta quarta-feira.
Se quiser receber notícias do Site MS NEWS via WhatsApp gratuitamente ENTRE AQUI . Lembramos que você precisa salvar nosso número na agenda do seu celular.











